(My) Violet Hill

17 março 2011 / Tags: , ,


Dedicado à J.
Espero que assim você entenda.



Tem um cara deitado no meu colo. Ele pesa bem mais que eu, mas isso não me incomoda mais. Meu coração pesa bem mais e eu ainda consigo caminhar todos os dias, às vezes até sorrindo como se dentro de mim morasse toda uma paz impensável, ao invés de um vazio que sinceramente cansei de tentar calcular.

Os olhos dele estão fechados e eu finjo que ele está dormindo, apesar de saber que ele sente calado meus dedos entre aqueles fios macios do cabelo dele e sorri prazeroso quando a ponta deles descem pelo pescoço fazendo linhas imaginárias de um caminho que eu nunca vi.

Às vezes os olhos dele encontram os meus e ele está tão próximo que tenho medo de ver tudo que guardo tão bem dentro de mim. Aquela máscara de força que esconde coisas demais, mas que esse olhar de avelã insiste em tentar destruir.

Ele já esqueceu meu nome pelo menos três vezes. Não o julgo, se já é difícil de aprendê-lo com os ouvidos livres, imagine em meio ao barulho incerto da música ritmada. Eu mesma poderia confessar que não prestei atenção ao nome dele quando fomos apresentados e que para aprender tive que associar a um dos meus personagens históricos preferidos, ou do contrário, eu tampouco saberia o dele. Aliás, só sei o primeiro nome, tenho uma leve idéia do segundo e não me interessa o último.

Bem, o fato é que eu o havia tocado com os meus lábios e deixei quem quisesse ver nossos dedos cruzados, então não havia volta. E isso não é uma reclamação. Na realidade, ele era bem tudo aquilo que minha carência desejava... Um sorriso que sorria comigo bem próximo ao meu rosto antes de me beijar. Alguém sem medo de ficar brincando com os meus dedos cruzados aos seus e que eu deixava puxar minhas unhas de cumprimento recém-adquirido, pintadas com esmalte descascando, mesmo que doesse um pouco.

Ele era amigo dos meus amigos de sempre. Aquela pessoa que jamais teria conhecido meu lado mais divertido e despojado se não conhecesse as pessoas certas. O que seria uma pena, na verdade, porque ele se encaixava bem em meio aos meus amigos que conheciam cada pontinha do que eu sou, porque sempre estiveram lá para ver. Mesmo que ele mal soubesse pronunciar meu nome.

- Sabe, eu cansei de ficar aqui contigo... - ele disse baixinho, ainda com os olhos fechados, mas sorrindo abertamente. Então se levantou, apoiou o braço no banco e ficou inclinado, com as costas encostadas nos meus quadris, mas o olhar fixado diretamente no meu. Parecia confortável demais para quem havia cansado. E já havia dito aquilo uma vez.

- Pode ficar há vontade para sair daqui, então... - eu respondi seca, sem vontade, como se realmente não me importasse. Mas na verdade aquilo me incomodaria muito. Eu não estava pronta para precisar levantar sem ter braços ao meu redor ou respirações em minha nuca. Mas, ele já havia feito aquilo uma vez e quando eu realmente ia sair de perto, ele me segurou contra o seu corpo com o olhar de "está louca?!".

- Tu não se importas? - ele disse, ainda brincando com aquilo, mas com um tom de retórica na voz. Mas, eu entendi a pergunta por trás daquela. Havia um 'comigo' exposto no olhar dele antes do ponto de interrogação.

- Com ninguém - eu menti, agora sorrindo e selando os lábios dele. Só o fiz para que ele não conseguisse entender o que estava por trás dos meus olhos. A idéia de como ele reagiria se eu dissesse que 'sim, eu já me importava com ele', me fez tremer. Ele tinha aquele ar esnobe que, apesar de gostar dele, não me deixava confiar de dizer muito sobre mim. Isso me deixava certa de que ele não precisava saber nada sobre mim.

Ele teria minha atenção por uma noite, depois poderia fingir que nunca me conheceu, que nunca me beijou ou que gostou de ficar comigo. Ou comentar tudo com os amigos, ou fazer o que ele quisesse com essas lembranças. Eu as usaria como inspiração pra um conto e depois o esqueceria. É essa a ciência por trás de querer beijar alguém que conheceu numa festa, certo? Eu estava seguindo o script.

Mas, eu acho que ele não leu a peça antes de começar a encenar.

Ele sorriu e não me deixou afastar nenhum centímetro antes de me beijar com vontade. Minhas mãos foram automaticamente para a nuca dele e quando eu o fazia, ele parecia se inspirar num beijo ainda melhor. Apenas da minha autonegação, eu estava certa de que gostava mais dele há cada momento. Mas, ele não precisava saber disso, certo?

- Sabe, eu juro que não queria, mas já vi que vai ser difícil te esquecer... - ele me pegou com a guarda baixa nesse momento. - Ou talvez eu não queira te esquecer. - E sorriu com simplicidade. Depois do meu silêncio e de uma possível conversa com ele mesmo, continuou: - Eu passei o dia todo pensando em ti hoje e sinceramente só vim hoje porque queria ficar contigo...

Assim como eu, ele gostava de por sentimentos onde não deveria. De se entregar a eles. De não ligar para se nós dois teríamos uma noite juntos ou milhares. Ele queria simplesmente aproveitar aquela, não esquecer nunca. E eu me perguntei onde eu havia guardado tudo aquilo dentro de mim. Senti vontade de beijá-lo e de alguma forma absorvê-lo. Tudo aquilo era uma parte de mim que estava se perdendo e eu não sabia como impedir. Todo aquilo levou as minhas palavras.

Eu nunca soube lidar com quem parece comigo. Porque parecer com alguém não significa gostar das mesmas coisas, mas ter as mesmas atitudes. Eu não costumo gostar de quem toma as mesmas atitudes que eu. Mas, de alguma forma estranha e instantânea, eu gostava dele. De como ele me tratava. De como eu me sentia perto dele. E se ficar perto dele implicava perder minhas palavras, acho que o produto valia o preço.

- Tá pensando em quê? - ele me perguntou depois de outras tantas perguntas e parecia muito interessado, especialmente agora que eu estava colaborando. Eu sorri e respondi calmamente: - Eu escrevo, sabe? Estava pensando se conseguiria descrever isso aqui... Acho que não.

Eu tinha razão.





"Eu levei meu amor para violet hill. Lá nós nos sentamos.
O tempo todo, ela permaneceu em silêncio.
Então, se você me ama porque me deixa ir?
Se você me ama não vai me deixar saber?"

Apenas confie em mim.

14 comentários:

  1. aaaaai muito lindo, como sempre.

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  2. MuauhauaH show de bola Yazita, lindo o conto, e é dificil mesmo de descrever

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  3. ah fiquei totalmente presa na historia, o tempo todo. adorei o jeito como você contou a história, sabe? me senti meio que observando a cena, como se estivesse bem do lado dos personagens.
    em fim, adorei <3 sempre é uma surpresa voltar aqui.

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  4. Parabens pelo conto, parabens pela escrita, parabens pelos personagens. PARABENS PELO SEU TALENTO !
    beijos
    Melanie Ann

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  5. É por essas e outras que tens um fã. S2
    Amei a postagem, querida. Parabéns.

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  6. Ilzy, muito humano o seu texto! Adorei *.*

    Bjssss!
    Mandinha

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  7. e esse final? parece que você me conhece as vezes, sério mesmo. :O meio que ja passei por isso, e adorei esse aqui! parabéns sempre, gata

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  8. Meu Deus! Estou encantada! É um ótimo conto, uma linda crônica, eu diria! Envolvente, clara e enigmática ao mesmo tempo.. com um assunto tão trivial acabou tendo um ar despojado e bem arrumado.. Ah, não consigo explicar o que eu achei do seu conto..hahahah.. é muito lindo!
    Parabéns!

    BlogDia_a_Dia

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  9. Muito bom, lembrou-me de mim antigamente, sempre com um vazio enorme, procurando alguém para preencher... Não é uma luta fácil, mas o prêmio pra quem é persistente em procurar A pessoa vale TUDO. Parabéns!

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  10. Gostei do texto, aconteceu mesmo, ou foi tudo fruto da sua imaginação?

    Enfim, gostei daqui e to te seguindo, se quiser, dá uma passada no meu, eu também escrevo: http://cafecomcaramelo.blogspot.com/

    beijos, Bia. (@_bsawa)

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  11. Mas então, esse texto foi menor que os outros ou eu que achei a leitura mais rápida? Mais enfim.

    Contos. Fiquei pensando neles enquanto escrevia esse comentário e acho que você sabe realmente escreve-los.

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  12. senti como se estivesse do lado dos personagens, e te imaginei mesmo sendo só por uma foto,efim ótimo textos como sempre.Parabéns pelo seu talento.

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  13. ótimo texto, boas descrições e pensamentos descritos com um estilo bem acentuado.
    Gostei mesmo.

    @rafcl em nome do @vintagecabaret

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  14. Não gostei desse conto. Achei um pouco confuso... =/

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