O Lado que ele não ouviu (ainda)

23 fevereiro 2011 / Tags: , , , ,



Desculpe, A., mas, você também quebra promessas.
T., como você se sente sabendo
que não serei uma das tolas que vão chorar no seu enterro?



Observei todas as falhas das calçadas até encontrar o portão do meu prédio. Meus tênis galgaram todos os degraus, um por vez. Eu não tinha a menor pressa de chegar à minha casa. Não quando eu sabia que a encontraria apenas sendo iluminada pela meia-luz fosca do abajur ao lado da minha cama. Além, claro, daquele silêncio incomodo que diz coisas que ninguém quer ouvir.

Encontrei a Sra. Albuquerque, minha vizinha do apartamento ao lado, quando cheguei ao meu andar. Ela me lançou um sorriso acolhedor com seus olhos azuis e leitosos. Suas mãos enrugadas alcançaram meu pulso como forma de apoio. Eu me obriguei a sorrir também para ela e fui quase convincente.

Ela desceu as escadas calmamente, depois olhou para trás. Eu ainda esperava no alto das escadas observando minha porta, perdida nos meus próprios erros. Lá de baixo, eu senti seus olhos queimarem minha nuca, virei o pescoço e observei-a por alguns instantes. Seus olhos queimavam de curiosidade em minha direção. Eu desviei o olhar, sentindo-me estranhamente envergonhada e caminhei.

Engraçado como tudo ao meu redor parecia me acusar.
Talvez porque eu realmente merecesse.

Girei a chave e abri a porta. Arranquei os tênis usando os próprios pés e os deixei pela casa. Fui à cozinha e abri a geladeira, fiquei ali alguns instantes e fechei de novo. Eu gostava do ar gelado em meu rosto antes de enfrentar tudo que eu precisava.

Caminhei preguiçosamente até o meu quarto. Duas luzes iluminavam o local. Uma delas era o display do meu celular. Eu estava com uma mania proposital de esquecê-lo em cima da cama todos os dias. De não mais carregá-lo. Eu preferia deixar meu dia e meu cérebro livre do que ele me guardava, à noite eu tratava de minhas confusões.

E lá estava ele, repleto de erros que não me deixaria dormir.

Sentei-me na cama, com as pernas cruzadas. Observei a tela refletir meu rosto torturado. Havia duas novas mensagens. Deixei um suspiro cortar meus lábios com o batom fraquinho e peguei-o. Era melhor fazer logo aquilo. 

"Sinto muito se perdi a paciência hoje. Não era culpa sua. Eu te amo muito, me perdoe". Pisquei os olhos e todas as lembranças estavam lá, preenchendo a escuridão. Eu havia conhecido meu namorado numa biblioteca. Desde a primeira vez que o vi sorrindo com a aba do boné cobrindo seus olhos brilhantes, eu sabia que o queria pra sempre comigo. Algumas pessoas não acreditam em amor à primeira vista, mas eu posso dizer que elas estão erradas. Aos poucos, nós estamos cada vez mais próximos e quando eu dei por mim, estava aceitando o pedido de namoro dele sem sequer tê-lo beijado ainda.

Estamos juntos desde então e não é exagero dizer que muitos dos melhores momentos de minha vida passaram-se ao lado dele. Temos praticamente os mesmos gostos e ele me ama de um jeito puro e muito raro hoje em dia: o verdadeiro. Apesar de não ser muito boa nisso de demonstrar sentimentos, eu o amo, acreditem, muito mesmo.

Mas, as coisas mudaram.

"Vou à sua casa hoje. Preciso te ver antes que eu enlouqueça." Era o que dizia a outra mensagem. Não posso negar que ao ler aquilo, meu coração deu um salto doloroso para minha garganta. Quase não consegui respirar. Um sorriso involuntário veio ao meu rosto. Eu me sentia um lixo por isso, mas não podia negar que as simples palavras do Peter podiam alegrar toda a minha semana. Tê-lo aqui então, perto de mim? Era quase um sonho.

E isso era completamente errado porque ele era praticamente um irmão para o David, meu namorado, que foi quem nos apresentou. "- Você vai gostar dele, relaxe Yasmine...", ele disse, antes de me levar na casa do tal cara de quem ele tanto falava. 

E ele não podia estar mais certo.

Eu observei o Peter da cabeça aos pés, sem qualquer pudor. Ele era bem alto que o meu 1,60 e tinha os cabelos curtos e ondulados num tom de castanho quase preto. Os braços enormes estavam cruzados sobre o peito vasto e quando ele respirava, parecia que o mundo se tornava mais calmo. Seus olhos eram vulgares, mas pareciam gostar de mim. Ele era a encarnação do charme em todos os movimentos. Quando Davi nos apresentou, ele sorriu abertamente e me apertou contra seu corpo num abraço de urso enquanto dizia "- Ah, finalmente eu te conheci, garota!".  E eu o amei no mesmo instante. Assim, instantaneamente.

Acho que esse foi maior erro.

Trocamos celulares e depois de uma ligação que durou horas, descobri: como se fosse possível, eu o amava mais a cada segundo, cada palavra, cada risada. Aos poucos, vimos que temos tanto em comum que dava certo medo... Quando eu penso nisso, costumo me ver diante de um espelho, mas o meu reflexo era mais alto que eu, usava calças. Ele repetia meus movimentos antes de eu pensar neles e sempre sabia como eu me sentia ou o que falaria. Meu reflexo era o Peter. Ele era exatamente igual a mim.

Em menos de uma semana, ele já conhecia todos os meus segredos, já havia destruído todas as barreiras mais profundas do meu coração e a voz dele era a única coisa que realmente me deixava feliz. E tudo isso era profundamente recíproco. Eu passava horas conversando com ele e poderia fazer isso o quanto quisesse, pois sabia que jamais me cansaria.

Minhas lembranças foram cortadas quando ouvi dedos contra a porta. O interfone não havia tocado, mas eu sabia exatamente quem era. Olhei o relógio e notei que havia passado muito tempo devaneando, pois já era bem tarde da noite.

Antes que pudesse nos complicar e também pelo meu desejo incontrolável de vê-lo, corri até a porta. E quando eu a abri - ansiosa demais - lá estava ele. Ele não me esperou convidá-lo para entrar. Pegou-me no colo e fechou a porta com um pé. Seus braços me aninharam em seu vasto peitoral e eu me senti finalmente bem. Completa.

Ele me levantou do chão e me levou até o meu quarto, fechou a porta, a janela e certificou-se de que eu estava sozinha antes sequer de me olhar nos olhos. Sentei-me na cama de pernas cruzadas e não pude conter o sorriso vasto que se espalhava pelos meus lábios. Esse sorriso era refletido no rosto dele. Ele sentou-se refletindo minha posição bem a minha frente. Ficamos de frente um para o outro apenas observando.

Naquele momento eu senti um imenso vazio, um desespero silencioso que queria sair de mim em forma de grito. Eu queria que ele fosse plenamente meu, eu queria tocar seus lábios e sentir seus braços ao meu redor sem que meus pensamentos me torturassem por isso. Mas, jamais magoaria o David dessa maneira... Ele não mereceria tal traição e eu tinha certeza que Peter pensava a mesma coisa. Mas, eu não conseguia controlar meus sentimentos!

Não era mais novidade nem para mim, nem para o Peter: nós estamos apaixonados um pelo outro. E não poderia haver sentimento mais errado no mundo. Como nós podemos deixar aquilo chegar aquele ponto? Como eu podia amar o irmão do meu namorado? E principalmente: Como nós dois íamos lidar com isso?

Naquele momento senti a mão dele segurar meu queixo suavemente para que eu o olhasse nos olhos. Senti um calor excessivo no traço que ele fez e meu rosto corou no mesmo instante. "- Eu te amo tanto...", eu o ouvir dizer, bem baixinho como se tivesse medo que as paredes escutassem. "-... Eu queria que houvesse um modo de não magoar ninguém em tudo isso...", eu sabia que nada aconteceria entre o Peter e eu, mas as vezes era quase impossível controlar minha vontade de beijá-lo.

Ele levantou-se. "- Preciso ir...", aquelas palavras eram o mesmo que tentarem tirar meu coração com uma mão. "- Não, por favor, fique mais um pouco..." sussurrei me aproximando dele. "- Não é certo, Yas. Eu temo pelo que posso fazer se ficar muito tempo a sós com você...", eu queria gritar então faça, eu não me importo!, mas simplesmente abaixei novamente os olhos.    

Peter tocou novamente meu queixo. "- Por favor, não esqueça que eu te amo, de todas as formas possíveis" e então ele caminhou em direção a porta. Fiquei sentada em minha cama, apenas observando ele sumir e sentindo um gosto entranho nas palavras dele. Soavam quase como uma despedida, mas não temporária. 

Levantei-me apenas para trancar a porta, ainda sentindo o perfume dele em mim e deitei-me. Feliz, por saber que ele me amava tal como eu o amava e profundamente triste por saber que se um dia David soubesse disso, seria a pior das traições.

...

Quando acordei pela manhã, não vi o sol sair. As janelas ainda estavam fechadas e a noite de ontem havia parecia apenas um sonho bom. Era domingo e eu não sairia para lugar algum, queria ficar a sós com meus pensamentos.

Tomei um banho e vesti novamente meus pijamas. Preparei um café bem forte e debrucei-me sobre o balcão. Eu estava procurando evitar estes pensamentos, mas era inevitável: eu precisava tomar uma decisão sobre tudo aquilo. 

Ponderei. Obviamente, meus sentimentos por Peter eram fortes, mas eu não me via ao lado dele como via a mim e ao David. Eu me imaginava sentada numa casa de colina, velhinha como a Sra. Albuquerque, enquanto via o meu Davi enrugado, acariciando um pastor alemão e com o mesmo sorriso que me tornou essa completa apaixonada por ele. Peter seria nosso visinho e ele continuaria a trazer alegria para os meus dias, mas como um irmão, não tomando o lugar de Davi.

É, isso era o certo a se fazer. Quando Peter me ligasse naquela noite, seria isso que eu falaria a ele e tinha certeza de que ele concordaria comigo. Um sorriso triste me veio aos lábios. Eu jamais magoaria o Davi, prometi a mim mesma. Então escutei baterem a porta.

Ainda segurando a xícara, abri a porta no meio de um gole. Arrependi-me no mesmo instante. Ali, com os olhos cheios de lágrimas e com cara de quem não dormira toda a noite, estava o meu David, segurando um livro que eu havia lhe emprestado. Engoli o café que queimou minha garganta. "- Como você pode fazer isso comigo?!", ele disse enquanto empurrava o livro contra minhas mãos.

"- Davi, o que houve com você?", eu quis saber, minha voz tremendo de preocupação e minha mão alcançando o rosto dele. Então eu senti o olhar de nojo que ele me lançou enquanto retirava minha mão do seu rosto e entendi tudo. Peter havia contado a ele. "- Como você pode? ELE É MEU MELHOR AMIGO! VOCÊ ERA O AMOR DA MINHA VIDA!", ele cuspiu essas palavras como se elas não valesse mais nada.

Meus olhos encheram-se de lágrimas no mesmo instante. Elas escorreram quentes pelo meu rosto, alcançando minha boca, meu pescoço, meu coração. Eu tentei falar, mas minha garganta estava completamente obstruída de desespero. Ele andava de um lado para o outro sempre. Então ele parou de frente a mim e disse baixinho, um pedido louco entre suas lágrimas: "- Me diga que é mentira, me diga que isso tudo não passou de um mal entendido, por favor...", e mesmo querendo mentir, eu simplesmente não pode. Permaneci calada.

Ele voltou a sua mágoa furiosa e proferiu as palavras que me cortaram em milhões de pedaços por dentro: "- Nunca mais nos procure, entendeu? Eu nunca mais quero ver seu rosto na minha frente!" e dito isso ele saiu pelos corredores. Eu ainda tentei correr atrás dele, mas quando alcancei sua camisa entendi tudo o que havia acontecido: Peter contou a ele apenas de eu estava apaixonada por ele, não a sua recíproca.

Aquela traição levou a força dos meus joelhos. De todos os lados, eu fui apunhalada pela mão que segurei com toda a força em meus maiores medos, meus maiores segredos. Meus joelhos alcançaram o chão e eu não vi mais nada em minha frente, mas podia sentir perfeitamente uma faca entre minhas costelas.

Naquele momento, o chão em baixo de mim ruiu e eu desabei dentro de um imenso abismo de desespero. Tudo que ouvi foram às últimas palavras que ele havia me dito noite passada ecoando em minha cabeça: Não esqueça que eu te amo, de todas as formas. Ali mesmo eu vomitei o que pensei serem os pedaços que meu coração havia se tornado. 


Dê-me seu relógio que eu quero saber quanto tempo falta para lhe esquecer...
Nossa relação acaba-se assim: Como um caramelo que chega ao fim, na boca vermelha de uma dama louca.

17 comentários:

  1. Não acho elogios que expliquem o quanto adoro seus contos. Parabéns !

    ResponderExcluir
  2. nossa, fiquei sem palavras *--*
    admito que sou muito preguiçosa para ler textos gigantes, mas nunca me arrependo de gastar um tempinho lendo os seus textos *-* esse ficou muito bom, mesmo.
    e o final deixou tudo mais interessante. mais dramático e mais real.
    o primeiro que veio a minha mente quando estava na metade foi: "no final, vai ter um casal feliz", mas admito que adorei estar errada.

    continue assim :*

    ResponderExcluir
  3. absurdamente maravilhoso.
    o final então, destruiu!

    ResponderExcluir
  4. o final foi foda mesmo /\
    muito, MUITO forte e super bem construído!

    ResponderExcluir
  5. Muito interessante o blog !
    Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...;

    www.bolgdoano.blogspot.com

    Muito Obrigada, desde já !

    ResponderExcluir
  6. Meus Deus, como devorei cada palavra desse texto pensando ser um livro daqueles que agente não quer parar de ler. Muito lindo, super perfeito. Parabéns!
    Estou seguindo e encantada!
    beijos.

    ResponderExcluir
  7. aaaaaah muito, muito bom, seilá, simplismente só queria continuar lendo, Parabens, (:

    ResponderExcluir
  8. Dispensa comentários! Parabéns mesmo!

    ResponderExcluir
  9. Não se tenho mais raiva da Yas ou do Peter! kakakaka!!! Mas o conto é perfeito!

    ResponderExcluir
  10. Não sei se quero que o Peter seja meu, mas esse dom de escrever com certeza.

    ResponderExcluir
  11. gostei mais da parte "ele cuspiu essas palavras como se fosse nada", ja namorei através de palavras, com uma aluna da usp hoje doutora em letras, por intermedio da internet um namoro virtual que se desfez quando ela me conheceu pessoalmente em um verão qualquer de dez anos atras. O dom de mulheres bonitas é atrair sempre paixões loucas que se desfazem como os ventos de erico verissimo na pradaria. Voce tem uma combinação estranha de palavras e sentimentos, que gosto, e esse conto-testemunho-romanceado-novelistico-boemio me atrai por momento que passei na vida em quartos esbaforidos por ventiladores cheio de malicias e loucuras, menina ja li que te disseram isso, mas se nao te publicarem eu deixo de acreditar na vida. Publique-se. Porém nao espere muito, os melhores apenas sao reconhecidos depois da morte, um dilema da escrita que nunca se resolve. Meu eterno carinho e meu sereno abraço!

    ResponderExcluir
  12. Caaaaaaaaraaaambaaa! Muitoooo boom!
    De fato, palavras não seriam suficientes para expressar o quanto foi bom passar estes breves minutos numa leitura tão saborosa, do inicio ao fim, parabéns!

    ResponderExcluir
  13. Eu simplesmente não consigo descrever o que sinto lendo seus contos!Dor?Felicidade?Só sei que os adoro muito mesmo,e que eu poderia comentar isso em todos eles:você é ótima!

    ResponderExcluir
  14. èh me falta as palavras, nem perfeito chega perto do que esse conto representa... poxa Peter pisou feio hêm, que vontadee de bater nele x.X
    Nossa esse final?! meu Deus super legal...

    ResponderExcluir
  15. Certo,eu ja comentei esse conto,mais eu tenho que confessar que chorei muitas vezes lendo-o.Eu consigo sentir os sentimentos de Yasmine,e seu desespero.Se você lançar um livro,não importa se seja do outro lado do Brasil(eu moro em SP)eu iria até ai só para compra-lo(e para você autografa-lo).Muitos bjs
    Laura

    ResponderExcluir
  16. Não sei porquê, mas esses contos que envolve traição eu não gosto. =/

    ResponderExcluir