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Sempre gostei do tom avermelhado que o sol dava aos fios do cabelo dele, fazendo-o parecer ainda mais concentrado naquele livro de autor do nome estranho. Nada de literatura nacional, acho que ele já tinha lido todos, então se refugiava nas literaturas de outros países.
Eu tinha a impressão que um dia, após tanto esforço, ele leria tudo que tem vontade. E quando esse dia chegar, ele vai abaixar finalmente os olhos das linhas e os colocará em mim. Talvez demore anos, eu não posso prever, mas posso esperar.
Por ele, eu posso esperar.
De todos os outros caras que eu conheci, nenhum deles chegava perto do meu querido Ricardo. Também estava longe do que eu julgava bom-pra-mim. Ele esquecia com frequência das datas importantes e era um tanto misantropo pela manhã. Nunca me deu flores, mas me levou ao seu banco preferido do parque e me explicou porque gostava de ler ali. Ele tinha preguiça de fazer a barba. Era rude quando contrariado. Odiava minha banda preferida e trocava uma boa conversa sobre coisas que eu amo por ler aqueles livros velhos.
Mas, todos os dias ele vinha ao meu apartamento e sentava comigo ali na namoradeira que coloquei ao lado da janela. Era hora do pôr-do-sol e eu adorava sentir aqueles raios percorrendo minha pele. Ele nunca foi fã de sol, mas sentava comigo ali e ficava. Quando ameaçava chover e um vento frio vinha da janela, ele me puxava para o seu peito, seu colo, seus braços e ficava comigo ali, até que o frio passasse, até que eu quisesse sair. No geral, demorava muito tempo.
Nós costumamos brigar todos os dias. É, por qualquer coisa. E quando isso acontece, cada um de nós vai pra um canto do apartamento. Eu sinto vontade de dizer tudo que eu mais odeio nele, mas controlo minhas palavras. Quando eu me canso de sentir saudades dele, mesmo ele estando no quarto fumando um cigarro, preparo uma xícara de café. Só uma. Coloco entre os dedos e vou até a janela. Ele apaga o cigarro, vai até onde eu estou e me abraça. E pronto, as coisas estão resolvidas. Simples assim.
Quando é pra ser, os maiores sacrificios se tornam simples como respirar.
Os defeitos se tornam só pedrinhas no caminho, você só precisava passar por cima.
Se não é fácil, apesar do quão difícil possa parecer, é porque não é Amor.
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02 maio 2011 / Tags: abraço, Amor, coturnos, distancia, menina, menino, tatuagem, tempo, viagem, viajem
Pra ser lido em meio ao silêncio, por favor.
Ela piscou os olhos duas ou três vezes. Queria ter certeza que estava acordada, mas não sabia ao certo ainda. Mirava à frente uma imagem mais ou menos conhecida, e mesmo assim curiosa. Uma grande imagem monocromática de um parque e da figura refletiam em algum lugar em meio à imensidão.
Havia olheiras, muitas delas; havia cansaço em todas as feições, em cada gesto, cada jeito. Os olhos não brilhavam mais, até mesmo os fios ruivos perderam a vida. As árvores balançavam com a brisa suave e fria, carregando as vestes do ser que não se movia. Tinha os olhos opacos, parecia preocupado.
A observadora estendeu a mão até onde pode. Quis afagar-lhe, consolar-lhe e mesmo se não pudesse, quis ajudá-lo. Só não esperava que quando finalmente pudesse lhe tocar, estaria tocando um espelho frio.
Acordou de um susto, tomou três goles do ar.
Olhou um mar de lençóis ao redor e sentiu-se afogar.
Preciso de um tempo até entender que não precisava ter medo, apesar de saber que era só autoproteção. Sabe, a única coisa da qual se deve ter medo é de si mesmo. O espelho deveria ser um alerta, um sinal de perigo.
Sacou o celular e observou as horas sem realmente se importar. O sono ainda embebedava seu sangue. Discou a efeito de costume o número conhecido, colocou o celular no viva-voz. Fechou os olhos.
Três ligações depois, escutou uma voz gutural, mas plenamente acordada, que murmurou algo como alô:
- Eu preciso ir.
- Sabe que horas são?
- Não. Sei que preciso ir.
- Nós não tínhamos combinado que seria melhor não prolongar isso e...
- Não me interessa. Eu só preciso ir, por favor, não me diga outro não.
Aquele silêncio desconfortável que é cortado só pela respiração de alguém penetrou em forma de sombra. Gritava. Esmagava. Ele apenas respirava, ela esperava paciente seu outro não.
- Você não tem aula ainda hoje?
- Que horas sai o avião?
- Não quero que você perca aula por mim.
- Não quero perder você e estou perdendo. A vida é uma merda e você não pode ter tudo que quer. - ela disse, engolindo uma lágrima. - Que horas?
- Às cinco...
- Eu estarei lá.
- Eu não quero.
- Quando você terminou comigo, eu deixei de me importar com o que você quer ou não. Agora eu estou cuidando de mim. E eu preciso ir.
Desligou e lembrou que não sabia nadar.
Levantou. Engoliu o choro. Caminhou até o banheiro. Sentiu medo do espelho. Chorou. Vestiu um short meio rasgado e uma camiseta. Amarrou os cadarços. Escovou os dentes. Esqueceu de pentear o cabelo. Desceu. Tomou um taxi. Chorou denovo. Chegou.
Eram quarto da manhã e os coturnos apressados machucavam o chão. A cada passo, uma quase corrida. A cada olhada, uma procura. Quando encontrou, engoliu o choro. Ninguém precisava saber que você chorou. Quando o encontrou, nenhuma palavra.
Cruzou seus dedos aos dele enquanto ele tocou a tatuagem do seu pulso com o dedão. As veias dela latejaram, os olhos dele encheram d'água. A alma dos dois se misturou novamente.
Sem dizer nenhuma palavra, ele a puxou para um dos bancos. Sentou-se e ela sentou-se em seu colo. Aninhou-se no que sempre considerará um lar. O peito dele coberto por uma camisa era quente. O coração dela gelava cada vez mais. Os braços dele a envolveram protetores. Ela fechou os olhos e desejou morrer ou qualquer coisa menos dolorosa do que pensar.
Respirava devagar. Sentiu o peito dele subir e descer. Ignorou todos os barulhos lá fora. Seu ouvido captando apenas o coração dele. Tum-tumtum-tum. Bloqueava os pensamentos. Os pensamentos irrigavam sua mente. Sua alma dançava e se misturava cada vez mais a dele. O sol começava a nascer. O avião pousou.
Alguém sabe como se pára o Tempo?
Alguém sabe como se livrar da Distância?
Alguém sabe como se esquece um Amor?
Não.
Ninguém sabe.
Ouvir dizer que o pior é que a gente sobrevive e concordei.
O pior é que a gente sobrevive.
Pra ser lido ao som de "Chasing Pavements - Adele"
Eu tento, juro que tento, mas simplesmente não dá pra deixar pra lá.
Observo todos os dias, horas, minutos, segundos que posso.
Em todos os meus pensamentos, em todas as minhas músicas e em todos aqueles versos tolos que faço e escondo na última gaveta do meu armário.
Porque, quando você caminha, posso sentir que aquilo é quase um sacrifício. Vejo aqueles sorrisos que vêem e se vão com a mesma velocidade. Todas as músicas que menciona parecem à trilha sonora perfeita da depressão. Sei que está sofrendo, sei que precisava de alguém pra conversar. Alguém pra simplesmente sentar e ficar ali, sem precisar de motivos.
Mas, não sou sequer seu amigo.
Eu sou só o cara que gosta de observar sem que ninguém perceba.
Sem que isso incomode.
Sem que isso me deixe vulnerável.
E enquanto isso, essa solidão vem amiga e senta ao meu lado.
Faz-me companhia e diz que vai ficar.
Enquanto isso eu sei que você está sentada em algum lugar tentando bloquear os próprios pensamentos. Porque eles doem, porque você quer ser forte, mesmo quando tudo que o seu corpo pede é para ficar ali, sentada em qualquer lugar, fingindo que as coisas estão certas.
Otimismo é só o disfarce dos corajosos quando nada parece dar certo.
É a ilusão de que o mundo gira e logo trará algum melhor.
Mas, ele nunca trás se você não fizer algo a respeito.
Pensamentos positivos não são nada comparados às atitudes.
E eu sei de tudo isso porque, uma alma reconhece o gêmeo-sofrimento de outra.
E eu sei que de algum modo você precisa de mim tanto quando eu preciso de você.
Mas, enquanto eu não digo e você não percebe, vou deixando que outras mãos cruzem os dedos aos seus, que outros corpos toquem o seu, que os seus sorrisos sejam como os meus e esperando que um dia sua solidão e a minha possam fugir para um lugar distante, enquanto eu sento e apenas de te observo respirar.
Quando é que você vai entender que toda essa solidão é porque não esta olhando para o lado certo?
13 janeiro 2011 / Tags: Amor, conto extendido, esperar, homem perfeito, menino, vazio
Aquele cabelo sem corte, aquela garota sem sorte esperando que o destino fosse gentil.
Quem vai lhe avisar que ele nunca é?
Sentada na janela do próprio quarto, no primeiro andar daquele prédio cinza, com as pernas jogadas em qualquer lugar. A saia entre elas. Saia de tule, babados velhos demais para a idade dela. Camiseta velha roubada do pai. Velho roqueiro. Velho frustrado. Apenas velho. Não é culpa dele.
E acredite, a última coisa que ela quer agora é lhe ouvir dizer que ela é bonita e inteligente e que tudo vai ficar bem. Ou mesmo sobre como um coração intacto pode ser valioso. Mas, especialmente, ela não quer ouvir nada além da própria respiração.
Nada pode doer mais que o vazio de nada sentir.
Os ventos levavam seus cachos que ricocheteavam por suas costas. O sol do crepúsculo era perseguido por uma nuvem grande, cinza e barulhenta. Sol e chuva. Iluminado o suficiente para quem quiser ver o quão dói está sozinha. Cortado pelos pingos o suficiente para dar idéia de esconderijo mal pensado.
Era o fim da tarde. A noite estava vindo.
Antes companheiro, agora o gato felpudo dormia no tapete que cobria o chão. Não parecia nem um pouco interessado nos pingos da janela. Nem na dona. Aliás, quem estava?
Quem gostaria de ouvir suas lamentações?
Quem gostaria de lhe abraçar agora?
Quem?
A xícara quente de chá dançava sobre suas mãos. Ela não estava interessada nas capas pretas e guarda-chuva lá em baixo, nem na utilidade de um casaco agora. O sol iluminava sua pele que refletia o tom moreno num mórbido branco-perolado. As árvores pareciam dançar, vendo dali.
E quanto tempo mais ela precisava esperar?
Até que ele venha, lhe tome as mãos e diga que está tudo bem. Então ela vai sentir que está mesmo. Vai abraçá-lo pelo pescoço e beijá-lo ali também. Vai amá-lo como nunca amou ninguém. E tudo que ele precisará fazer é sorrir. Sempre sorrir. Ele poderá ligar quando quiser só para ouvi-la respirar. Ele vai gostar de ir a todos os lugares que ela sempre sonhou ter alguém com quem caminhar. Vai ter uma câmera no pescoço e milhares de beijos nos lábios. Eles não morarão juntos, mas vão viver juntos. E especialmente, ele vai preenchê-la por completo.
E nunca abandoná-la no vazio.
Mas, quanto tempo vai levar até ele chegar? Quantos sentimentos trará consigo? Será que alguma lágrima ou apenas sorrisos? Ele dirá "eu te amo" no primeiro minuto ou depois de anos? Ele dirá, aliás? Seria bom ouvir.
Tantas dúvidas!
Mas a única que realmente incomodava era: Ele existia? Caso sim, onde está? Perto, longe ou distante demais? Ela sentaria ali todos os dias se preciso e juntaria as mãos num pedido suave: "Venha logo, antes que o vazio se torne tudo que terei para oferecer."
Esperar por você dói demais.
Você não sabe a falta que faz, mesmo que eu ainda não te conheça.
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