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01 janeiro 2017 / Tags:



Aquele era o melhor dia do ano.

A diarista cujo nome ele nunca perguntou havia deixado tudo limpo para a ocasião. Pôs margaridas num velho vazo quebradinho no fundo, lustrou os móveis e os talheres - aqueles herdados da avó que só saiam do armário em dias como esse - e deixou a casa inteira cheirando a uma mistura agradável de limão - do chão - e creme de camarão - da cozinha. 

Ele esperava que ainda gostasse de camarão.
Ele esperava pelo convidado.
Esperava. 

Esperava sentado à mesa retangular que ficava em frente a cadeira vazia do outro lado. Encarava o muro de tijolos desgastados do fundo do prédio ao lado do seu,  desses prédios sem nenhuma janela para espiar uma vizinha mais nova, uma briga de casal ou a paciência que só os velhos lendo livros antigos parecem ter.

Ele esperava ser um desses velhos cheio de paciência.
Ele esperava a tempo demais.
Esperava. 

Aquilo já estava mesmo estranho. Atraso não era do feitio do convidado. Ou será que naquele ano ele tornou-se alguém atrasado? Seriam filhos para pegar na natação? Ou a esposa que não o deixara sair antes de um último beijinho que resultara na prisão em um engarrafamento? 

Ele esperava que a esposa fosse bonita.
Ele esperava a tanto tempo que perdeu as contas.
Esperava.

Desistiu da mesa, sentou-se no sofá com a garrafa de vinho que seria do jantar nas mãos e os cigarros que fumava desde adolescente. Não deu-se ao trabalho de pegar uma das taças. Já passava da meia noite e nenhuma notícia do convidado. Com o conteúdo da garrafa no meio e os cigarros pela metade também, o homem começou a pensar se talvez aquilo não fosse loucura da sua cabeça o tempo todo e agora estava curado. 

Era mesmo aceitável pensar em loucura, mas o fato aconteceu de verdade. Desde o aniversário de 20 anos, ele recebia a visita de si mesmo do ano depois aquele. Sim, loucura, ele sabia. Mas, era verdade. Todos os anos desde aquele aniversário que passara sozinho aos 20, depois de mudar-se para aquela cidade onde não tinha amigos, nem família, nem conhecidos. 

Estava sozinho naquele dia em questão, como em todos os outros. Preparara um jantar de comida congelada e um pack de cervejas para comemorar, depois de receber algumas parabenizações em redes sociais, as quais mal usava e também não pretendia responder. A mãe havia ligado a pouco com um parabéns e uma conversa breve, do pai recebera um murmuro e da irmã não sabiam notícias, estava na rua, divertindo-se sabe sei lá com o que os jovens se divertem nesses dias. 

Assim, por volta das 8 da noite, em horário de verão no período em que o sol ainda terminava de descer no horizonte deixando um rastro laranja e rosa por todo o céu daquela cidade sem vida, ele escutou da cozinha o chacoalhar de chaves na porta. Não esperava ninguém naquele dia e, claramente, ninguém mais tinha a chave além dele. Pegou uma faca que ficava próxima ao balcão. 

Imagine o leitor qual foi a surpresa do homem quando viu que alguém com o seu cabelo, sua camisa favorita, uma calça a qual não lhe servia mais e os tênis de corrida que nunca foram usados pra isso entrou na casa.

- Q-quem é v-você? - perguntou com a voz trêmula demais para ser levado a sério, mesmo com a faca na mão. Calmamente a figura trancou a porta novamente, colocou as chaves onde ele sempre colocava ao chegar e virou-se para ele. Era como olhar no espelho uma versão melhorada de si mesmo. Um espelho para ver o universo paralelo onde uma versão dele dera certo. O homem tinha o rosto corado, saudável, um porte bem maior que o dele e uma barriga bem menor. As roupas lhe vestiam bem. Os tênis, porém, pareciam gastos. - Eu sou você - disse, calmamente o homem, sorrindo para ele. - Quer dizer, você daqui um ano. 

13 março 2016 / Tags:


à Linda Ferreira, 
estas palavras jamais serão as mesma sem você.

Para ouvir: All Dolled-Up in Straps - The National

Olhou pela fresta da janela como se espiasse, clandestina, e constatasse: há vida lá fora. Sentia frio, embora não fizesse frio, talvez a frieza que sentia por dentro agora escorresse até mesmo por fora. Aquela onda viscosa, pungente e apática que havia subtituído seu sangue finalmente encontrara o caminho para fora, mostrava-se ao mundo e

Ninguém se importava realmente. Nem ela, na verdade, ali de pijamas e com mais de quatorze horas seguidas de um sonho sem sonhos, sem descanso. Com lembranças de acordar sem mexer-se e de passos pelo quarto, do acender e apagar da luz que ela apenas sentia, ali escondida atrás das próprias pálpebras.

Mas, antes o sono sem descanso que as madrugadas insones, com cigarros, bebidas fortes demais e conversas filosóficas e políticas e amorosas e (por que não?) eróticas, para ver desesperadamente se alguém a conseguia fazer sentir algo além desse vazio imenso que sufoca e corrói e mata um pouco mais todo dia.

Levantou-se sem vontade. Queria um café. Pegou a panela: água, acúçar, pó na xícara, fogo, gás. O fogo esquentava a água e o fósforo iluminava seus dedos. A chama perigosa cada vez próxima e ela bravamente esperando-a queimar. Queimou: ação-reação largando o fósforo. O dedo latejava, correu para a torneira. A água fria parecia ela própria misturar-se a dor: parem carros e motos e obras e chamem Drummond, garanto que sentiu-se algo. Era feio, mas sentia-se. Breve segundo de vida.

Ignorando a vontade de abrir o forno, o gás e deitar a cabeça na grelha, colocou água na xícara, mexeu. Aproximou a boca da xícara, ali perto da asa onde estava meio lascadinha de tanto uso, e esperou a fumaça cobrir-lhe as lentes dos óculos por completo. Gostava daquilo. Dava a sensação de que os óculos finalmente mostravam o mundo como o via: formas indistintas em tons de cinza e
quando a fumaça dispersava-se, a vida não voltava a ser bonita como outrora.

Mantinha-se cinza e ela tão apática checava mensagens que não queria responder, cobranças por baixo da porta da alma: "nunca mais saímos", "podemos marcar algo", "pare de ser tão egoísta", "eu ia te convidar", "já arrumou um emprego?". Ignorando-as como se fosse uma devedora, envergonhada por não ter nada além daquele vazio a oferecer.

27 dezembro 2015 / Tags:

Escrito ao som de Chet Faker

NEGAÇÃO

O corredor daquela casa estranha parecia um cruzeiro a naufragar.

A vodca que dançava pelo meu sangue anunciou brevemente que deveríamos encerrar o ato e caminhar até o fim do corredor mal iluminado para salvar a mim, para salvar a ela. Já havíamos vencido as escadarias em espiral, todos os quatro lances.

Agora era só procurar outro copo, outro corpo que igualmente afundasse como o cruzeiro que cá estamos. Eu, assim como o cruzeiro, afundava em mim. Naufrago de mim mesma refugiada naquela ilha que não é de ninguém e nem será. Repúblicas são ilhas onde ninguém está realmente em casa.

Um estranho me esperava no andar de cima. Os locais onde ele colocava as mãos e os olhos em mim, deslizando facilmente da minha cintura para baixo pensando que eu não percebia, denunciavam suas intenções. Eu que nem me importava mais com o coração na parte de fora o deixava dançar pelas minhas curvas, alcançando montes, deslizando por pontos que notoriamente não era dele - nem seriam.

Do mesmo modo eu me afastava, dizendo que ele não teria o que sussurrou em meu ouvido, que fosse sozinho pra um quarto qualquer, que fosse a merda. Ele me empurrou forte contra a parede depois disso, deixando-me sozinha, bêbada, louca. 

Tudo que consegui fazer foi colar as costas na parede e deslizar até que meu corpo tomasse o lugar onde meus saltos estavam, onde parecia seguro. Depois de algum tempo, acabei notando que não adianta tentar fugir do perigo eminente. O pior náufrago é aquele que sequer admite o apuro em que está. A pior parte de morrer dentro de si é negar a própria morte. 

Naufraguei.


RAIVA

Às vezes, quando teus olhos estão bem distantes dos meus, gosto de destilar por toda sua nuca, seu pescoço, suas costas, o ódio que tenho guardado aqui. Por sorte, nunca me olhas nesses momentos tão peculiares, tão meus. É que assim, te olhando enquanto te odeio, resguardo a mim mesma de qualquer outro sentimento bom que possa nutrir por ti.

Eu sei que tu respira aqui em baixo, com teus cigarros, teus livros empoeirados, tua bagunça sem vergonha. Nego-me terminantemente a descer de novo a tua caverna. Também nego-me a olhar muito para os lados, num pavor estranho de ti achar pelo cruzeiro, puro pavor de te ver de braços estendidos pra mim. Engulo do veneno que se forma agora na minha garganta ansiosa por encontrar agora um rosto conhecido.

Alguém que mal saiba de nós e concorde com tudo de pior que eu diga a teu respeito, que me faça sentir vitima de tudo isso e não parte ativa da morte-de-nós-dois como lá no fundo sei que sou. Uma amiga me encontra, coloca o braço magro no meu ombro enquanto dança a música alta que não conheço, o cigarro de maconha põe nos meus lábios. Escuta todo o veneno que cuspo, diz pra ter cuidado que essas coisas matam, que é melhor aproveitar enquanto pega de volta o cigarro e beija meus lábios pra depois perder-se no mar de gente para pegar outra bebida.

Mergulho também.

30 agosto 2015 / Tags:


Pra ouvir: Open - Regina Spektor


Existe um momento da manhã, ali entre o fim da noite e o começo da manhã onde a cidade inteira é coberta de preguiça e a luz não é tão clara assim, onde todas as dores são mais agudas. Onde o sol não é quente o suficiente para consolar, nem a noite fria o suficiente para fazer adormecer. Os que acordam cedo por instinto sabem bem do que se trata.

A garota com os lençóis cobrindo apenas os joelhos era um deles.

O acordeonista que toca pela terceira vez a mesma música num apartamento próximo também. A senhora de saias longas e cabelos desarrumados que descia a rua com sacolas e conversa com o vento também. A jovem mãe do outro lado da cidade que finalmente conseguiu adormecer o bebê com cólicas e agora contempla o começo da manhã também sabe. Nenhum deles conhece o outro e talvez nunca chegassem a ser apresentados, mas ali - naquele momento sem nome - compartilhavam a mesma sensação.

Ninguém desconfia, mas a solidão nunca foi tão acompanhada.
Uma festa particular que ninguém foi convidado e está cheia mesmo assim.

11 janeiro 2015 / Tags:


Pra ouvir: Vagalumes Cegos - Cícero

"Vagalumes cegos emperrados entre o meio e o fim."

Já era a terceira xícara que seus dedos abraçavam. 
Primeiro seu café. Depois o chá que havia pedido pra ele. 
Então, outro café. 

Esse era o último, jurara para si mesma observando sem cansar a porta do local. Sentia o olhar do garçom - único cúmplice - lhe atingir em cheio pela costas. Os dois esperavam já sem paciência. 

Passava das três da tarde e ela sabia que deveria ter ido embora há pelo menos duas horas atrás, mas não conseguiu. Pensou, primeiro, que era normal atrasar alguma vez, uma veizinha só. Mas, ele nunca atrasava. Talvez o trânsito? É, podia ser. Talvez um problema no carro, na vida, na data. Olhou novamente o relógio no celular. Data cerca, hora errada. 

Encontraram-se assim quase que por acaso da primeira vez. Ela pedia um café forte e ele um chá amargo. Sentaram-se na mesma mesa. Gostaram da casualidade daquilo. Tornaram tradição. Uma vez por ano, na mesma mesa, no mesmo pequeno restaurante à meia luz. Nunca comiam nada, embora fosse hora de almoçar. 

O roteiro de perguntas eram tão conhecido nos últimos cinco anos que já nem precisavam fazê-las. Apenas ficavam ali aninhando a xícara quente entre os dedos, enrolando um ou dois cachos do próprios cabelo e encarando as palavras do outro numa avalanche contida, esperando para derramar a sua. Cada um era o segredo do outro. 

Uma vida inteira construída ao redor dos 364 dias além daquele. Uma vida inteira esperando para ser contada ali. Ela, que no primeiro ano só falava da confusão sobre o último ano da faculdade e de como desejava a vida boêmia em outro país. Agora, no último, só falava do marido e dos gêmeos pequenos e suas pequenas conquistas diárias. Naquele ano havia reservado uma história divertidíssima sobre o primeiro passo da menina e como o irmão tentou acompanhá-la, fracassando terrivelmente e puxando-a consigo rumo ao chão.  

Ele, pelo contrário, que tanto desejou casar-se com a namorada de anos atrás e estava com tudo planejado, acabara com um emprego de gerência numa indústria da região. Nunca casara, nem sequer conseguira os filhos sonhados desde sempre. Hoje já nem pensava neles. Dizia que os filhos eram os funcionários que cresceram sem limites e ele era obrigado a limitar. 

E logo após a atualização, os dois punham-se a sonhar em conjunto. A recordar os três anos de uma espécie de namoro anterior àqueles encontros e, também, os planos frustrados pelos desejos divergentes de cada um. Brincavam de estar vivendo a vida dos sonhos do outro. Até que ele, com os olhos esperançosos dizia que o sonho dele era ela e sempre foi. Ela corava toda vez. Ele, então abraçava os dedos quentes dela, dizendo que ainda a esperava. 

24 agosto 2014 / Tags:


Para ouvir: I'm outta time - Oasis


Sentia-se no ar o leve cheiro de poeira acumulada. Ela dançava lentamente nos feixes da luz fraca da manhã. Incomodava o nariz mais sensível do rapaz que ainda não sabia como havia conseguido girar a chave e adentrar ali. 

Por semanas, caminhou decidido até o prédio e subia as escadas confiante. Mas, assim que visualizava o 303 da porta de madeira morta, toda a força que acumulou durante a semana se esvaia do seu corpo. 

O rapaz via-se aos poucos caindo aos pés dos números prateados, onde passava toda a manhã sentado brincando com a única chave que carregava na mão até que a vergonha fosse maior que ele e finalmente fosse embora sem sequer entrar. 

A velhinha que morava no apartamento da frente, o 304, já estava acostumada a vista do rapaz jogado no corredor todo domingo quando ia passear com o labrador que criava. O rapaz sabia que ela o conhecia porque, por dezenas de vezes, o viu sair dali de fininho no domingo pela manhã, assim como quem espreita por não ser encontrado por nenhum conhecido. Todas as vezes, trocava com ela um olhar de suplica. Ela sorria ternamente todas as vezes. Pela idade, já devia conhecer o amor quando o via.

Na primeira vez que o viu jogado no chão, uma semana após o ocorrido, trocou as únicas palavras que já direcionou a ele. "Sinto muito", disse ela, com sua voz macia e calma da velhice. Ele não sabia se ela estava falando da sua perda ou do fato de tê-lo apanhado em meio ao choro tão indiscreto pra ele que não chorava na frente de ninguém, exceto dela e agora da velhinha cujo nome nunca soube. 

Por trás do cheiro de poeira, o doce cheiro dela ainda habitava ali. 
Como quem entra num quarto onde alguém acabou de se perfumar para sair. 

Aquele cheiro costumava ser o melhor calmante que conhecia quando ainda morava no abraço dela. Se fechasse os olhos, ainda podia ouvir claramente os passos dela pelo assoalho de madeira. O barulho da aliança batendo na taça de cristal sempre cheia do vinho que tanto amava e tomava independente da hora ou do dia. A risada rouca caindo no sofá e dizendo que ele devia relaxar mais, aproveitar o belo da vida. Cada uma daquelas lembranças eram um lembrete da ausência dela. 

Doíam como da primeira vez que soube que não a veria mais. 

31 maio 2014 / Tags:


Para ouvir (não necessariamente com o conto): Man in black - Johnny Cash

Coletava pequenas alegrias aleatórias ao longo do caminho do seu ônibus de todos os dias. O sorriso travesso do menino que saia da escola, o brilho das uvas grandes da barraca do mercado ao sol de meio dia, o mototaxista que ajudava um velho a colocar o capacete, o vento que só era fresco as margens do rio que banhava a cidade e o bebê no colo da mãe acenando para o avião. Fazia nota mental de todas elas. Roubava as alegrias alheia para manter-se sensível ao mundo.

Suas preferidas eram as pichações dos murros da cidade, especialmente os atalhos. Eram desenhos borrados de portas, cada uma com a indicação de pra onde levariam. Atalhos para a solidão, a felicidade, a audácia e, sua preferida, para a sedução - que ficava na avenida conhecida como palco de toda lascividade assim que o relógio vomitava a meia noite.

Os murros discursavam para toda a cidade surda. Contava suas verdades. Ela gostava de tudo que aparentemente ninguém notava. As vezes, quando não encontravam nenhuma nova alegria para coletar pela janela, virava-se para os seus companheiros de caminho.

Todos os dias, no mesmo horário, os mesmos desconhecidos se reuniam numa confraternização tácita. Ela, de tanto observar, já havia decorado a parada e o jeito da maioria deles. A moça de cabelos curtos que subia próximo ao rio sempre descia perto do supermercado do outro lado da cidade. O gordinho gentil sempre cedia a cadeira para mulheres quando o ônibus estava lotado. O velho morderninho com seus fones de ouvido que estava sempre muito interessado em algo na tela do celular.

Gostava de dava bom-dia baixinho para o motorista quando subia. Na primeira vez em que ele lhe ouviu, recebeu com um susto o cumprimento, mas agora a presenteia com um sorriso tímido de quem nunca é notado. Ela gostava de cumprimentar os profissionais invisíveis para coletar seus sorrisos tímidos - o motorista de ônibus, o guarda, a faxineira da universidade e o porteiro do prédio.

Gostava também de conversar mentalmente com o seu companheiro de banco. Era tímida demais para falar realmente, então montava toda a personalidade dos outros e ia-se por todo o caminho roteirizando uma conversa divertida. Os tímidos costumam ter uma imaginação incrível para preencher as lacunas que a vergonha não lhe deixa expressar verbalmente.

04 março 2014 / Tags:


Pra ouvir:  Feel Good Inc – Gorillaz


“A melancholy town where we never smile”


Uma pequena gota de suor escorreu pela nuca alcançando suas costas, desenhando caminhos por dentro da blusa social. As pessoas naquela parada de ônibus realmente gostavam de bater umas nas outras. Ninguém pedia desculpas a ninguém, estavam todos correndo apressados atrás de seus ônibus lotados. O ombro dela quase foi levado por uma ou duas delas. Os saltos incomodavam, a calça social pinicava suas pernas. Ela tinha apenas trinta minutos pra almoçar no primeiro lugar que encontrasse. O calor fazia ondas no asfalto entre os carros e buzinas.

Quando finalmente encontrou um restaurante, estava completamente lotado. Parecia que todo mundo que trabalhava nos prédios comerciais próximos resolvera almoçar no mesmo lugar. O local era pequeno, cheio de mesas com quatro cadeiras cada e tudo tinha tons de metal. Não parecia confortável. As vozes se sobressaiam desconexas. Ela fez o prato mesmo assim, embora odiasse comer em lugares lotados. Não estava lá com muito bom humor, mas se precisasse dividiria a mesa com algum desconhecido. Mesmo que odiasse fazer isso.

Por sorte – até agora, a única do dia – uma das mesas, a próxima do espelho grande que cobria inteiramente uma das paredes ficou vaga assim que a moça que trabalhava com a balança e mascava o chiclete rosa de boca aberta terminou de pesar seu prato. Caminhou até a mesa como quem espreita para que ninguém a visse primeiro. Sentou-se, checou o relógio e bebeu um gole longo do suco de laranja. Alívio instantâneo. Os músculos relaxaram. Ela pegou todo o cabelo cujo alguns fios grudavam na nuca suada e prendeu-os alto, num coque mal feito.

Assim que o primeiro pedaço de carne se abrigou na boca gelada do suco, ele entrou. Devia ter entre quinze e dezesseis anos. Vestia uma blusa meio furada que claramente era maior que ele. Uma doação. Assim como o restante das vestes: sandália preta de tiras finas e um jeans desbotado.  Apesar dos trajes, o rapaz tinha pompa. Entrou como quem frequenta o lugar todos os dias. Conversou com a moça do chiclete. Era eloquente. Insistiu tanto que acabou ganhando um salgado de frango.

16 fevereiro 2014 / Tags:


Para ouvir: Hopeless Wanderer – Mumford & Sons


Dessa vez, ele havia empenhado muito esforço naquilo. De algum modo, sabia que era sua última chance. Procurou não esquecer nenhuma das dicas que ela havia dado. Procurou levar a sério o que ela dizia, procurou ouvir mais seus problemas, procurou ser mais gentil. Sabia que ela gostava daquilo. Quem diria, até cavalheiro ele se tornou – mas, não muito, só o suficiente pra parecer natural. 

Dessa vez, ela não podia dizer que ele sequer estava tentando – como da última vez. 

E, agora, com ela aninhada no seu peito, com as unhas esmaltadas de azul cravadas de leve na camisa branca que ele usava, parecia que tudo havia valido a pena. Ela estava de olhos fechados. O cabelo escarlate parecia uma chama espalhada pelo travesseiro. O peito subia e descia devagar, a perna lisa dela – às vezes – roçava de leve nos pêlos da dele. Sabia que ela não estava dormindo, mas gostava de poder fingir que ela já confiava o suficiente para deixá-lo ali enquanto dormia. 

Alguma das bandas estranhas que ela tanto amava tocava baixinho vinda de algum ponto da sala. Um bandolim soava com veracidade. Ele quis rir. Quem diabos gosta de ouvir folk hoje em dia? Ela gostava. Ele não sabia o nome daquela faixa, mas também gostou. Nunca admitiria isso em voz alta – especialmente perto dela – mas gostou. 

Pegou uma das mechas meio alaranjadas do cabelo dela com a mão do braço onde ela recostava a cabeça agora. Alisou-a de leve entre os dedos. Seus pensamentos pegaram carona na última vez que viu o brilho dos fios dela em suas mãos. Ela chorava de joelhos nessa mesma cama, com as mãos no rosto e ódio nos olhos avermelhados que lhe dirigiu quando o expulsou dali. Foi o dia que ele lhe contou sobre a nova namorada. 

Sempre souberam que não daria certo entre eles, nem da primeira vez e muito menos depois dele tê-la trocado por outra, mas mesmo assim, aquilo parecia um pacto secreto que só eles compartilhavam. Um relacionamento cheio de ausências e tempos separados. Era formado, em essência, por algum desses momentos em você não pretende seguir em frente e aceita o que recebe. Esse ar de conformismo pairava pelos dois sempre que estava juntos. 

Aquela não foi a primeira vez que ela o expulsou da sua cama, da sua vida e essa não era também a primeira vez que ela o aceitava novamente. Houve a vez que eles brigaram tanto que ele precisou segurar os braços dela porque as unhas se cravavam no seu peito lhe faziam querer matá-la. Alguns meses depois ele a viu num bar, lhe pagou um drink e, de repente, parecia que tudo estava certo entre eles novamente. 

Se ele precisasse apontar a maior qualidade dela, seria como ela conseguia abafar sua fúria e deixar bem guardada as suas mágoas. 

Houve também a vez em que ela vomitou tudo que pensava sobre ele. É impossível confiar em você, ela disse daquela vez. Ainda podia ouvir a voz dela ecoando em sua cabeça. Ele tinha consciência que merecia todas aquelas palavras, mas isso não as tornava menos dolorosas. Por mais de uma vez, ele havia traído a confiança que ela lhe depositava. Ficaram quase um ano sem ver um ao outro depois dessa. Parecia que quanto mais tentava não magoá-la, mais vezes sairia da vida dela deixando-a segurando lágrimas. 

Mas, daquela vez, era tudo diferente.

09 maio 2011 / Tags: , , , , , , ,



Permitindo-me um tanto de clichê: parece que foi ontem mesmo quando tudo isso começou... Ontem que, de repente, eu senti necessidade de compartilhar com alguém tudo aquilo que gostava de escrever e esconder na última gaveta do guardarroupa. Ainda consigo ver exatamente o dia em que escrevi o Dádivas & Maldições, conto este que - além de um dos meus preferidos, até hoje - foi uma verdadeira propulsão para todos os outros contos.

Acreditem, depois que se libera as palavras pelos dedos uma vez, você não consegue mais controlá-las.

Desde então as coisas apenas evoluiram. Mudei de servidor - antes o blog era hospedado no Wordpress -, os contos foram ganhando vida, ganhando leitores e - por não dizer? - corações. Fico plenamente feliz com os números desse lugar e animada de saber que algumas pessoas também gostam dessas minhas palavras com gosto de café, música e sentimentos.

Como eu sempre achei esse blog um tanto impessoal, hoje, em comemoração ao primeiro aniversário do blog, resolvi que iria fazer diferente e gravei um vídeo pra vocês, explicando algumas coisas sobre ele, agradecendo algumas pessoas, me apresentando, esse tipo de coisa. Porém, o som saiu uma porcaria, minha internet não está funcionando como deveria e temo que não vou poder postá-lo ainda hoje. 

Na verdade, o vídeo era apenas para responder 5 das perguntas que estão sempre me fazendo o tempo todo, então vou transferi-la para cá mesmo, afinal, sou mais amiga das palavras...

18 abril 2011 / Tags: , , , , , , , ,



Sabe, eu gosto de pensar que minha vida é um seriado famoso. Que, por todos os lados onde estou, existem câmeras registrando tudo e que todos esses eventos bizarros são criações de roteiristas sádicos; que todos as pessoas que conheço são atores e que, qualquer dia desses, quando a verba acabar ou quando o público finalmente perceber o quão chato é me assistir, o diretor irá me contar tudo e pedir desculpas por toda a mentira que minha vida sempre foi. Então eu poderei começar tudo novamente.

Mas, enquanto todo mundo pensa que eu não sei sobre as câmeras, as falas ensaiadas e as risadas ao fundo, você pode me ver nesse novo episódio. Chamo-me Monalisa, tenho dezesseis anos e quando ninguém está olhando, eu finjo que sou realmente famosa!

Silêncio nos estúdio, por favor.
Luz, câmera, ação!
Tomada única.

...

O branco dos lençóis se misturava a minha própria brancura de um jeito estranho em meio ao meu quarto dominado por tons de branco, tabasco e roxo. Eu estava sentada do único modo em que se consegue pintar as unhas dos pés, uma pose no mínimo bizarra - e dolorosa, mas acho que apenas as meninas poderão me entender. Tinha certeza que ninguém entraria para ver, então pouco importava.

O escarlate das minhas unhas das mãos trazia as dos pés para o mesmo barco enquanto eu cantarolava tranquilamente, tentando imitar com a garganta a introdução de Secret Door. A letra me fez lembrar dele novamente. Aliás, infelizmente eu havia associado todas as músicas da minha banda preferida a ele - afinal, nossa banda preferida era a mesma.

Exceto o álbum Humbug, que ele não gostava muito.
Julgava depressivo demais.
E por isso era meu preferido.

27 março 2011 / Tags: , , , , , , , , , ,



Meu braço estava sob meus olhos e eu observava a escuridão dentro de mim. Ao contrário da maioria das pessoas, eu gostava do escuro. As pessoas têm medo da escuridão porque não sabem lidar com aquilo que não podem controlar. Eu sabia controlar minha escuridão. Minha alma jazia podre e escura dentro de mim e eu continuava controlando-a, limpando-a com qualquer coisa ácida o suficiente para fazer minha cabeça girar, como fazem as loucas paixões.

A mão grande e gelada dele estava parada na minha nuca, entre minhas madeixas escuras e cacheadas. Ele tentava roubar o calor dali deixando-a quietinha, enquanto disfarçava que simplesmente me deixava deitar em seu braço. Eu gostava do toque gelado na minha nuca.

Nós dois estávamos deitados no chão do apartamento dele. Antes de fechar meus olhos, eu o vi colocar a carteira, as chaves e três garrafas ali no chão, ao seu lado. Mexi minhas pernas e meu vestido preto e curto subiu ainda mais. Não me dei ao trabalho de arrumá-lo. Meus saltos mal me deixavam arrumar minhas pernas.

Senti minha saliva com gosto de Martini pedindo para descer pela garganta. Mais alguns instante e parecia que aquela agonia ia me matar, então engoli em seco. Ao fundo da minha traqueia eu ainda sentia o gosto de canela daquele último cappuccino com quem amanhã será meu ex-namorado.

Tirei o braço dos olhos e me levantei com cuidado. Eu não estava bêbada, tinha derramado em mim muito mais do que aquilo que ingeri. Passei uma das pernas pelo quadril dele e me sentei sobre ele. Coloquei as mãos uma de cada lado da cabeça dele e meus cabelos formaram um arco selvagem que impedia a luz (que entrava em formas quadradas pela janela fechada) de chegar até ali.

Eu queria levá-lo para minha escuridão.
Prendê-lo ali e tê-lo apenas para mim.

21 março 2011 / Tags: , , ,


Sabe, eu nunca fui do tipo de pessoa que acredita em destino. Não faço idéia do que diz o meu ou o seu signo, não entendo como possa existir uma força mágica que guia nosso caminho ou que tudo já está certo para acontecer. Simplesmente não entra na minha cabeça que minha vida seja um livro já escrito e que eu não seja sua (legitima) autora. 

Acredito que a única coisa que pode interferir no rumo da minha vida são as minhas escolhas. E acredite, eu tomo uma atitude diferente à todo instante. Meu pensamento voa com facilidade e não consigo me prender à nada que não seja genuinamente interessante. Ou pelo menos divertido. Meus sentimentos borbulham dentro do meu corpo e faz do meu sangue seu caminho de temperamentos incertos todo o tempo. E meu vicio em cafeína não me ajuda em nada no controle disso tudo. 

Então, como toda essa minha confusão poderia estar escrita em algum lugar?

Bem, o fato é que (como você também já deve ter constatado) basta pronunciar que não acredita em algo e o universo inteiro parece conspirar para te provar o contrário. Não porque você esteja certo ou errado, mas porque assim as coisas se tornam mais divertidas.

Ah! Você provavelmente deve estar querendo tomar (ou talvez já tenha uma firme posição) sobre essa coisa toda de destino. Quer saber? Eu não dou à mínima. O que é que eu posso fazer, afinal, acerca de tudo isso? Exatamente: n-a-d-a, então porque antecipar minhas rugas com os problemas do mundo? Ele já é bem grandinho, pode resolver seus problemas sem mim. 

17 março 2011 / Tags: , ,


Dedicado à J.
Espero que assim você entenda.



Tem um cara deitado no meu colo. Ele pesa bem mais que eu, mas isso não me incomoda mais. Meu coração pesa bem mais e eu ainda consigo caminhar todos os dias, às vezes até sorrindo como se dentro de mim morasse toda uma paz impensável, ao invés de um vazio que sinceramente cansei de tentar calcular.

Os olhos dele estão fechados e eu finjo que ele está dormindo, apesar de saber que ele sente calado meus dedos entre aqueles fios macios do cabelo dele e sorri prazeroso quando a ponta deles descem pelo pescoço fazendo linhas imaginárias de um caminho que eu nunca vi.

Às vezes os olhos dele encontram os meus e ele está tão próximo que tenho medo de ver tudo que guardo tão bem dentro de mim. Aquela máscara de força que esconde coisas demais, mas que esse olhar de avelã insiste em tentar destruir.

Ele já esqueceu meu nome pelo menos três vezes. Não o julgo, se já é difícil de aprendê-lo com os ouvidos livres, imagine em meio ao barulho incerto da música ritmada. Eu mesma poderia confessar que não prestei atenção ao nome dele quando fomos apresentados e que para aprender tive que associar a um dos meus personagens históricos preferidos, ou do contrário, eu tampouco saberia o dele. Aliás, só sei o primeiro nome, tenho uma leve idéia do segundo e não me interessa o último.

Bem, o fato é que eu o havia tocado com os meus lábios e deixei quem quisesse ver nossos dedos cruzados, então não havia volta. E isso não é uma reclamação. Na realidade, ele era bem tudo aquilo que minha carência desejava... Um sorriso que sorria comigo bem próximo ao meu rosto antes de me beijar. Alguém sem medo de ficar brincando com os meus dedos cruzados aos seus e que eu deixava puxar minhas unhas de cumprimento recém-adquirido, pintadas com esmalte descascando, mesmo que doesse um pouco.

Ele era amigo dos meus amigos de sempre. Aquela pessoa que jamais teria conhecido meu lado mais divertido e despojado se não conhecesse as pessoas certas. O que seria uma pena, na verdade, porque ele se encaixava bem em meio aos meus amigos que conheciam cada pontinha do que eu sou, porque sempre estiveram lá para ver. Mesmo que ele mal soubesse pronunciar meu nome.

- Sabe, eu cansei de ficar aqui contigo... - ele disse baixinho, ainda com os olhos fechados, mas sorrindo abertamente. Então se levantou, apoiou o braço no banco e ficou inclinado, com as costas encostadas nos meus quadris, mas o olhar fixado diretamente no meu. Parecia confortável demais para quem havia cansado. E já havia dito aquilo uma vez.

- Pode ficar há vontade para sair daqui, então... - eu respondi seca, sem vontade, como se realmente não me importasse. Mas na verdade aquilo me incomodaria muito. Eu não estava pronta para precisar levantar sem ter braços ao meu redor ou respirações em minha nuca. Mas, ele já havia feito aquilo uma vez e quando eu realmente ia sair de perto, ele me segurou contra o seu corpo com o olhar de "está louca?!".

- Tu não se importas? - ele disse, ainda brincando com aquilo, mas com um tom de retórica na voz. Mas, eu entendi a pergunta por trás daquela. Havia um 'comigo' exposto no olhar dele antes do ponto de interrogação.

- Com ninguém - eu menti, agora sorrindo e selando os lábios dele. Só o fiz para que ele não conseguisse entender o que estava por trás dos meus olhos. A idéia de como ele reagiria se eu dissesse que 'sim, eu já me importava com ele', me fez tremer. Ele tinha aquele ar esnobe que, apesar de gostar dele, não me deixava confiar de dizer muito sobre mim. Isso me deixava certa de que ele não precisava saber nada sobre mim.

Ele teria minha atenção por uma noite, depois poderia fingir que nunca me conheceu, que nunca me beijou ou que gostou de ficar comigo. Ou comentar tudo com os amigos, ou fazer o que ele quisesse com essas lembranças. Eu as usaria como inspiração pra um conto e depois o esqueceria. É essa a ciência por trás de querer beijar alguém que conheceu numa festa, certo? Eu estava seguindo o script.

Mas, eu acho que ele não leu a peça antes de começar a encenar.

Ele sorriu e não me deixou afastar nenhum centímetro antes de me beijar com vontade. Minhas mãos foram automaticamente para a nuca dele e quando eu o fazia, ele parecia se inspirar num beijo ainda melhor. Apenas da minha autonegação, eu estava certa de que gostava mais dele há cada momento. Mas, ele não precisava saber disso, certo?

- Sabe, eu juro que não queria, mas já vi que vai ser difícil te esquecer... - ele me pegou com a guarda baixa nesse momento. - Ou talvez eu não queira te esquecer. - E sorriu com simplicidade. Depois do meu silêncio e de uma possível conversa com ele mesmo, continuou: - Eu passei o dia todo pensando em ti hoje e sinceramente só vim hoje porque queria ficar contigo...

Assim como eu, ele gostava de por sentimentos onde não deveria. De se entregar a eles. De não ligar para se nós dois teríamos uma noite juntos ou milhares. Ele queria simplesmente aproveitar aquela, não esquecer nunca. E eu me perguntei onde eu havia guardado tudo aquilo dentro de mim. Senti vontade de beijá-lo e de alguma forma absorvê-lo. Tudo aquilo era uma parte de mim que estava se perdendo e eu não sabia como impedir. Todo aquilo levou as minhas palavras.

Eu nunca soube lidar com quem parece comigo. Porque parecer com alguém não significa gostar das mesmas coisas, mas ter as mesmas atitudes. Eu não costumo gostar de quem toma as mesmas atitudes que eu. Mas, de alguma forma estranha e instantânea, eu gostava dele. De como ele me tratava. De como eu me sentia perto dele. E se ficar perto dele implicava perder minhas palavras, acho que o produto valia o preço.

- Tá pensando em quê? - ele me perguntou depois de outras tantas perguntas e parecia muito interessado, especialmente agora que eu estava colaborando. Eu sorri e respondi calmamente: - Eu escrevo, sabe? Estava pensando se conseguiria descrever isso aqui... Acho que não.

Eu tinha razão.





"Eu levei meu amor para violet hill. Lá nós nos sentamos.
O tempo todo, ela permaneceu em silêncio.
Então, se você me ama porque me deixa ir?
Se você me ama não vai me deixar saber?"

Apenas confie em mim.

13 março 2011 / Tags: , , ,



Algo molhado lhe percorria os dedos do pé. Ele retirou o braço dos olhos e observou entre suas pernas. Max tendia a cabeça para o lado esquerdo e deixava a longa língua caída bem ali. Aquele labrador sabia mesmo como sorrir de um jeito bonito. Alex sentia-se péssimo desde que ela se fora – e olha que já fazia um bom tempo – e sua única companhia e animação estava resumida naquele saco de pêlos. Observou Max novamente, procurando algum consolo nos olhos molhados do amigo. Ele sempre encontrava. Como resistir aquilo? Levantou-se devagar, agarrou a câmera no criado mudo e devagarzinho registrou aquilo.

Max já estava tão acostumado com os flashes do dono que nem se importava mais. Foi até onde o rapaz e esfregou sua cabeça em suas calças, exigindo sua recompensa a ser paga em moedas de carinho. Alex afagou a cabeça do amigo. Ele podia sentir que Max estava incomodado com sua falta de animação dos últimos meses. Costumava parar e pensar o que seria de si mesmo sem aquele carinha ali para lhe animar todas as vezes que a alegria lhe escapava pelos dedos. E claro, sem o seu modelo preferido. Logo desistia de pensar naquela besteira e encontrava as resposta em alguma coisa quebrada pelo apartamento: Seria mais fácil, mas não mais feliz.

Depois de dar um sorriso ao amigo – o melhor que conseguiu – lhe deu um tapinha nas costas: - Que tal um pouco de exercícios, amigão? Pegou a coleira de Max e colocou-a em seu pescoço. Fazia tempos que eles não corriam no parque e Max animou-se no mesmo instante. Alex vestiu uma calça de malha cinza, uma blusa de mangas azul marinho e uns tênis surrados que gostava, pegou o amigo pela coleira. Era hora de dar um pouco de animação a quem só havia feito aquilo para ele nos últimos meses.

Saíram em direção ao parque que ficava próximo dali. Max tão animado que corria loucamente, forçando Alex a correr ao seu lado. Os ventos do princípio da noite percorriam o pêlo de Max e por não dizer, os de Alex também. A lua cheia iluminava o parque e tirava da garganta do animal uivos de devoção.

Quando o coração já quase lhe escapava pela garganta, Alex forçou a coleira e pediu um tempo. Max – com relutância, mas compreensão – sentou-se ao lado do dono com a língua para fora e a cabeça no colo dele.

Há quanto tempo ele não fazia aquilo? Tempo demais! Perguntou e respondeu para si mesmo. Max colocou sua cabeça grande sobre o colo do dono que havia comprado água para os dois e aproveitava agora para verificar a câmera que havia trazido. Não era muita surpresa. Aquela máquina era quase um orgão externo de Alex desde... Bem, sempre. Ele – além de trabalhar com fotografia – era completamente apaixonado por registrar todos os momentos que pudesse.

Então, Max começou novamente a uivar para a lua. Depois, deu seu jeito de sair da coleira – habilidade adquirida com muito treino, diga-se de passagem – e correu em direção ao parque. Alex que não estava surpreso do amigo ter conseguido tal proeza, respirou fundo e correu novamente atrás de Max.

Perdeu-o de vista minutos depois.
Num desespero silencioso, Alex procurou o amigo com o olhar em todos os lugares.
Chamou com toda a força de seus pulmões.

Depois de procurar por todo o parque, sentiu duas patas escostarem em seus joelhos. Max estava ali com cara de quem não entendia o que o dono estava procurando. Alex deu uma enorme risada e abaixou-se, coçando a barriga do amigo que recebeu o carinho deitando-se com força no chão e deixando a língua tombar para o lado esquerdo.

O vento bateu suavemente em seu rosto e ele parou alguns instante observando o amigo deitado. Uma sensação de amor incomensurável invadiu-lhe as veias e ele compreendeu: Não importava quantas vezes seu coração fosse partido, Max sempre daria um jeito de colar todos os pedaços com um sorriso de lingua caída.


Dedicado ao meu colador de pedaços de coração: Dobby. Bebe da mamãe.
Obrigada por sempre curar as minhas dores com os seus sorrisos.
Eu te amo para sempre.

23 fevereiro 2011 / Tags: , , , ,



Desculpe, A., mas, você também quebra promessas.
T., como você se sente sabendo
que não serei uma das tolas que vão chorar no seu enterro?



Observei todas as falhas das calçadas até encontrar o portão do meu prédio. Meus tênis galgaram todos os degraus, um por vez. Eu não tinha a menor pressa de chegar à minha casa. Não quando eu sabia que a encontraria apenas sendo iluminada pela meia-luz fosca do abajur ao lado da minha cama. Além, claro, daquele silêncio incomodo que diz coisas que ninguém quer ouvir.

Encontrei a Sra. Albuquerque, minha vizinha do apartamento ao lado, quando cheguei ao meu andar. Ela me lançou um sorriso acolhedor com seus olhos azuis e leitosos. Suas mãos enrugadas alcançaram meu pulso como forma de apoio. Eu me obriguei a sorrir também para ela e fui quase convincente.

Ela desceu as escadas calmamente, depois olhou para trás. Eu ainda esperava no alto das escadas observando minha porta, perdida nos meus próprios erros. Lá de baixo, eu senti seus olhos queimarem minha nuca, virei o pescoço e observei-a por alguns instantes. Seus olhos queimavam de curiosidade em minha direção. Eu desviei o olhar, sentindo-me estranhamente envergonhada e caminhei.

Engraçado como tudo ao meu redor parecia me acusar.
Talvez porque eu realmente merecesse.

05 fevereiro 2011 / Tags:


Uma chuva forte fustigava aquela avenida desconhecida, cercada de árvores altas e um asfalto muito gasto. O vento - que de tão forte, lançava as gotas de chuva para a direita – trepidavam as vestes de quem por ali passasse, mas não havia ninguém... Exceto a figura de uma menina. Imóvel debaixo de uma luz fraca vinda de um poste próximo à parada de ônibus. A julgar pelo seu olhar vago, ela não parecia muito ciente de onde estava ou simplesmente ignorava tudo ao seu redor. Ou talvez as duas opções.

Ela não procurava proteger-se da chuva. Colocou sua mão estendida pela estrada, o polegar inclinado levemente para a esquerda. Estava pedindo carona numa rua deserta e chuvosa. Ninguém iria passar naquela avenida, pelo visto... Foi quando ela já ia baixando a mão - depois de muitas horas na mesma posição - que surgiram dois focos de luz.

Era uma luz fraca e quase imperceptível em meio da chuva forte, mas lá estava. O carro - ela não conhecia carros, logo não sabia o modelo ou o ano, e a chuva forte não ajudava - parou à sua direita. Dois senhores de idade e um menino pequeno - de uns 5 ou 6 anos - olharam para a imagem da menina na chuva.

A senhora foi a primeira a falar: - Para onde está indo, moçinha? Num gesto simples, a menina indicou a direção, falando num tom áspero e sem emoção algo como estação rodoviária. A senhora fez um gesto de que entendeu e continuou - Também estamos indo naquela direção, quer uma carona? Sem hesitar ou responder, a menina entrou no carro, colocou seu saco de viagens entre suas pernas e permaneceu ali imóvel.

Primeiro a senhora apresentou-se como Mabel, depois apresentou o marido Joseph e o menininho como Brandon. Disse que estavam voltando de uma semana de lazer e perguntou de onde a menina vinha. Obteve como resposta um olhar vago e um dar de ombros.

Nenhuma outra tentativa de conversa durou mais do que isso. O senhor que dirigia fez a gentileza de ligar o ar quente e as gotas que pingavam do cabelo da menina cessaram. O tempo todo, ela olhava pela janela, mas não parecia ver nada.

Você perdi a voz após cometer um assassinato.
Mesmo que tenha sido sem querer.

04 fevereiro 2011 / Tags: , ,


Se puder sugerir uma trilha sonora, diria “No It Isn't – Plus 44”

Se aquele desgraçado estava pensando que as coisas iam ficar ok depois dele ter me dado essa mordida ridícula na bochecha, ele estava tão completamente errado que até dava dó. Que diabos eu iria dizer pra minha mãe quando chegasse em casa? Que estava bêbada e provavelmente drogada, no apartamento do meu melhor amigo quando ele – que estava pior que eu – decidiu morder minha bochecha pra arrancar um pedaço ao preço do bel-prazer?

Eu ia matá-lo, só estava esperando-o sair do banheiro.

Puxei a camisa dele para mais perto dos meus joelhos, mas ela logo voltou quase mostrando toda a minha roupa de baixo. Cuspe a palavra “porcaria” como se aquele xingamento escarrado pudesse amenizar todos os meus problemas. Eu sabia que não, mas acreditava que um dia essa teoria fosse me surpreender como sendo a única das verdades.

Xingar sempre ajudava meu ego.

Então me sentei no chão frio e mirei a garrafa de vodka que estava sob o balcão da cozinha. Um riso maldoso cortou minha garganta quando percebi que não tinha força para levantar até lá. Até tentei, mas bater o traseiro no chão doía de verdade, então parei no mesmo instante. Restava-me abraçar os joelhos, sentir a mordida latejando e o chão frio.

Apesar de tudo aquilo, a verdade é que eu gostava de ficar a sós com ele.

Só nós dois, nossas bebidas, nossas músicas estranhas e risadas altas demais. Geralmente pouca roupa, mas sem nunca encostar com malícia um no outro. Ele podia lamber os meus lábios e mesmo assim eu ainda o via do mesmo modo que uma irmã vê um irmão. Talvez, além disso. Ele era tudo que eu tinha e eu temia o dia em que o perderia.

Porque, no fundo, eu sabia que um dia iria perdê-lo.

Mas, enquanto isso, eu me perdia naquela diversão destrutiva e ridícula, simplesmente porque o caminho que parecia ser o da perdição me levava pro único lugar do mundo em que as coisas finalmente pareciam certas: o reflexo do meu rosto embriagada e sorridente nos olhos verdes dele.

A porta do banheiro se abriu atrás de mim e ele saiu de lá. Parecia que tinha vomitado até mesmo o coração – que eu acreditava já ter acontecido há algumas noites atrás – e riu me observando caída. “– Ei franguinho, levanta daí...” eu o ouvir dizer. “– Me deixa quieta, estou bolando jeitos de ti matar...” respondi, ouvindo minha voz esganiçada, rouca e fraca. “– Está tendo boas idéias?” ele perguntou interessado, enquanto se jogava qual um boneco de pano na cama que agora mais parecia um campo de batalha pós-guerra. “– Na verdade, não.” E depois disso, me arrastei reunindo as forças que me restavam, para também me jogar na cama, ao lado dele.

“– Continue tentando, franginho, uma hora os bons planos vêm...”, ele disse isso, colocando o braço debaixo da minha cabeça e com o rosto entre o meu cabelo. Minutos depois ele estava dormindo. Julguei que era melhor ficar ali também. Mordi o pescoço dele com força, me virei pro outro lado e dormi satisfeita.  

...

NOTA DA AUTORA: Deu vontade de escrever algo sujo. Sinto muito se esperavam um pouco mais de leveza. Tento ser leve no próximo.

E, aliás, gostaria de agradecer a todos os lindos comentários que tenho recebido. É uma honra enorme poder despertar emoções nas outras pessoas com essas palavras organizadas de modo estranho, mas com carinho. Espero sempre conseguir porque afinal, eu escrevo para tocar seus corações e aliviar o meu cérebro. Estamos conseguindo?

02 fevereiro 2011 / Tags: , , ,



Uma figura muito estranha caminhava pelas calçadas de Londres.
Era iluminada pelos primeiros raios da manhã, e não parecia nem um pouco com as pessoas que passavam por ela na rua, vestidas com seus ternos e maletas, prontas para mais um dia de trabalho. Era ignorada pela maioria destas pessoas e gosta disso.

Era uma menina, podia-se perceber.
Vestia uma camiseta preta com uma blusa cinza de mangas curtas por baixo. Um jeans muito surrado e rasgado cobria a parte traseira dos tênis all-star também muito gastos. Todas as peças estavam imundas, tal como ela mesma. O cabelo castanho estava preso num rabo-de-cavalo frouxo e um saco de vagens preto nas costas.

Seus passos eram lentos e airosos.
Ela não parecia estar muito ciente do mundo ao seu redor, e realmente não estava. Caminhava com a cabeça levemente levantada, as mãos nos bolsos da frente do jeans e apenas um objetivo em mente: chegar em casa. Aliás, ela poderia chamar aquele lugar de casa? Não. Ela jamais poderia chamar lugar algum de casa.

Não demorou muito para encontrar.
Ficava numa rua vagamente conhecida, próxima ao centro. Era uma casa bonita, tipicamente inglesa, com suas janelas quadradas e porta de madeira trabalhada. Tinha a fachada pintada de azul-acinzentado e as bordas brancas. Uma árvore feiosa ficava quase de frente à janela da sala de estar. Havia um gramado há muito não cortado.

Um suspiro pesado escapou por entre seus lábios. Home.
Ela caminhou por uma pequena estradinha de pedras até encontrar a porta de entrada. Não sabia ao certo qual das chaves daquele grande maço era a da entrada e apressou-se para descobrir, quase arrombando a porta.

Um visinho bateu a porta ao lado.
Ainda estava de pijamas e meias, e tinha um rosto redondo e corado. Observou-a por alguns instantes, em especial suas vestes completamente imundas. Franziu o cenho, numa mescla de surpresa e medo. Aquele era um bairro conhecido pelas redondezas, abrigava famílias de boa índole, em maioria idosa. Aquela decididamente não era uma figura que costumava passear pela rua, aliás, era exatamente daquele jeito que os moradores do bairro julgavam ser os sem-abrigo.

Ele esticou seu pescoço o máximo que pode. Queria ver melhor.
Espirava por cima da cerca branca. Havia muito tempo que ninguém ia aquela casa. Pertencia a uma família respeitada naquela região, os Rowan. Desde que o Senhor Rowan morreu, raramente a casa era visitada pelas herdeiras, a Senhora Rowan e uma menininha muito bonita da qual ele não lembrava o nome.

- O que pensa que está fazendo?
Ele indagou em voz alta para que ela não pudesse fingir não ter escutado. Certamente era uma andarilha sem abrigo que estava invadindo aquela casa, ele nunca deixaria aquilo acontecer, pois sempre fora amigo dos Rowan, em especial do falecido. A figura parou por um instante, hesitante. Virou a cabeça lentamente por cima do ombro esquerdo, até encontrar os olhos do visinho. Seus olhos eram fogo e ódio. Sua voz era cansaço e aspereza - Estou voltando para casa, Sir Hudson. Disse balançando o maço de chaves e abrindo a porta. Fechou-a atrás de si.

...

Quando entrou, a porta rangeu alto.
Numa primeira visão, observou a longa escada curva, uma sala a direita que era usada como sala de estar, onde ficava a lareira e outra sala - à esquerda - ocupada por uma longa mesa de jantar. O cheio de mofo impregnava o local.

Ela sentiu um dejavú diferente.
Podia ver uma menina pequena de cabelos ondulados e castanhos entrando pela porta onde estava, segurando a mão de uma mulher bonita e alta. Ambas sorriam, o sol estava bem em seus calcanhares. A mulher fechou a porta, a menina correu para a sala da lareira.

Os olhos de Lisbeth encheram-se, há ponto de transbordarem.
Ela levou uma das mãos à boca e mordeu a lateral com fervor. As lágrimas pouco a pouco cessaram e ela já podia ver novamente. Era estranho, aquela cena fora exatamente a última vez em que esteve naquela casa, seis anos atrás, no dia em que compraria seu material escolar.

Caminhou vagarosamente até à lareira.
Havia uma fileira de fotografia ali, todas dispostas numa espécie de linha do tempo. Primeiro a de um casal vestido como numa ocasião de casamento. Havia uma mulher sorrindo tristonha e um homem sério de terno e gravata vermelha. Era a única foto do homem. As outras, eram fotos de uma criança que Lisbeth reconheceu como ela mesma.

Havia dezoito porta-retratos ao todo.
Em cinco deles não havia fotos.
Era quase uma tradição para a mãe de Lisbeth, que todos os anos houvesse uma nova foto da menina. As primeiras eram bem espontâneas e não economizavam em matéria de sorrisos. Depois foram decaindo, decaindo. Lisbeth lembrava perfeitamente que recusar tirar a foto que indicaria seus 13 anos. A partir daí todos os porta-retratos estavam vazios.

Seus olhos brilharam com a lembrança.
Ela correu o dedo vagarosamente pela estrutura que sustentava os porta-retratos. Uma densa poeira se acumulava ali, como no resto da casa. De repente fora cortava por uma pequena gota d'água. Lisbeth recostou o braço na parede fria de tijolos e recostou a cabeça no braço. Soluçou por uma grande coleção de minutos, depois da primeira lágrima. Permaneceu ali até que as forças de suas pernas cessassem e ela caísse lentamente, de joelhos, de frente à lareira apagada.

Perder a mãe era o fim do mundo.
Mas, ela precisava seguir em frente.
Mesmo que tudo parecesse perda de tempo.

NOTA DA AUTORA; esse conto na verdade era o princípio da história de uma antiga personagem de RPG.